Fértil: Bromélias ajudam a fertilizar a Mata Atlântica e explicam árvores gigantes em solo pobre
Uma cena comum na Mata Atlântica chama a atenção de quem conhece o ambiente: árvores grandes e vistosas crescendo em solos arenosos e pobres em nutrientes, típicos da restinga. Um exemplo é o jacarandá-branco, também conhecido como caroba. Agora, pesquisadores brasileiros descobriram que as bromélias que vivem nas copas das árvores têm papel decisivo nessa história.
O estudo, conduzido por cientistas da Universidade Estadual de Campinas com apoio da Fapesp, mostra que bromélias-tanque, aquelas que acumulam água entre as folhas, funcionam como uma espécie de fertilizante natural à distância.
Água da bromélia leva nutrientes ao chão da floresta
Essas bromélias acumulam água da chuva e também restos de folhas, insetos e pequenos animais. Com o tempo, esse material se decompõe. Quando os “tanques” transbordam, a água escorre pelos galhos e leva nutrientes direto para o solo, criando pequenas áreas mais férteis no meio da floresta.
Esses “pontos ricos” favorecem o crescimento de plantas que precisam de mais nutrientes para se desenvolver, como a caroba, algo raro em solos naturalmente pobres.
Os pesquisadores chamaram esse processo de “interação remota entre plantas”, já que a bromélia fica na copa, longe do solo, mas mesmo assim influencia o crescimento de outras espécies lá embaixo.
Plantas crescem mais quando recebem água das bromélias
Em experimentos, mudas de caroba irrigadas com água retirada das bromélias cresceram mais e ficaram mais saudáveis do que aquelas que receberam apenas água da chuva. Elas produziram quase o dobro de folhas e apresentaram níveis mais altos de nutrientes importantes para o desenvolvimento.
“A bromélia não ajuda só quem vive na copa. Ela muda o ambiente lá embaixo também”, explica Tháles Pereira, primeiro autor do estudo.
Curiosamente, nem todas as espécies da restinga reagem bem a esse “reforço nutricional”. Algumas plantas são tão adaptadas à pobreza do solo que o excesso de nutrientes pode até atrapalhar seu crescimento.
Mesmo assim, os pesquisadores destacam que essas áreas fertilizadas pelas bromélias ocupam apenas uma pequena parte da floresta. O efeito final é positivo, pois aumenta a diversidade de tipos de plantas, permitindo que espécies diferentes coexistam no mesmo ambiente.
Estudo foi feito no litoral de São Paulo
A pesquisa analisou áreas do Parque Estadual da Serra do Mar, no litoral norte paulista, região conhecida por suas matas de restinga bem preservadas.
Para confirmar os resultados, os cientistas coletaram água de bromélias e da chuva e irrigaram mudas de caroba em estufa, em Campinas. Em parte dos testes, foi possível rastrear quimicamente os nutrientes, comprovando que eles realmente saíam das bromélias e chegavam às plantas do solo.
Importância para a conservação da floresta
Para o coordenador da pesquisa, Gustavo Quevedo Romero, o trabalho revela um papel pouco conhecido das bromélias. “Elas sustentam pequenos ecossistemas na copa e ainda ajudam a manter a diversidade da floresta no chão. Proteger essas plantas é fundamental para evitar perdas em cadeia na Mata Atlântica”, afirma.
A descoberta reforça que, na floresta, nem tudo acontece perto do solo. Às vezes, a chave para entender o crescimento das árvores está bem acima, nas copas, escondida dentro de uma bromélia.
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