2026/27: 'Etanol está mais atrativo que o açúcar', afirma analista ao projetar safra

Janeiro 2, 2026 - 06:41
Janeiro 1, 2026 - 23:37
2026/27: 'Etanol está mais atrativo que o açúcar', afirma analista ao projetar safra
Foto: Mayke Toscano/Gcom-MT

A produção de açúcar no Centro-Sul do Brasil deve cair cerca de 5% na safra 2026/27, mesmo com expectativa de aumento da colheita de cana-de-açúcar. A redução está ligada ao maior direcionamento da matéria-prima para o etanol, diante de preços internacionais mais baixos do açúcar e da demanda aquecida por biocombustíveis no mercado interno.

A avaliação é do analista da Safras & Mercado, Maurício Muruci, durante entrevista ao telejornal Mercado & Cia, do Canal Rural, desta quinta-feira (1º). Segundo ele, o cenário combina dois movimentos distintos. “O açúcar continua com preços pouco atrativos na Bolsa de Nova York, o que se reflete também no mercado interno brasileiro”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o etanol apresenta fundamentos mais favoráveis. “O etanol hidratado e o anidro têm perspectivas maiores de demanda entre os consumidores finais”, disse.

Etanol ganha espaço no mix das usinas

Muruci explicou que o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 30% é um dos principais vetores desse movimento. “Esse é o ponto de virada, porque eleva a demanda e os preços do anidro e, ao mesmo tempo, reduz a oferta do hidratado, sustentando preços mais altos para os dois”, afirmou.

De acordo com a Safras, o mix projetado para a safra 2026/27 indica 47% da cana destinada à produção de açúcar e 53% ao etanol. Para o analista, a decisão das usinas reflete uma combinação clara de preços e demanda. “As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo: o açúcar em queda no mercado internacional e o etanol em alta no mercado interno”, disse.

Ele destacou que, no fim de 2025, o etanol hidratado chegou a apresentar vantagem de 20% a 25% em relação ao açúcar em Nova York. “No ano passado, muitas usinas não conseguiram aproveitar essa vantagem porque estavam muito travadas em fixações de preço do açúcar”, explicou. Para 2026, o cenário é diferente. “Com uma safra nova, elas podem se posicionar melhor no etanol e deixar um pouco o açúcar de lado”, afirmou.

Excesso de oferta pressiona mercado internacional de açúcar

No mercado externo, Muruci apontou excesso de oferta como fator central para a queda dos preços do açúcar. “Há aumento de produção na Índia, Tailândia e China, o que faz esses países comprarem menos açúcar do Brasil”, disse. Segundo ele, os dados indicam superávit internacional elevado de forma persistente.

Esse contexto limita as exportações brasileiras de açúcar e reforça a estratégia das usinas de priorizar o combustível. “O etanol está mais atrativo que o açúcar, e as usinas vão aproveitar isso”, afirmou.

Biocombustíveis ganham caráter estrutural

Para o analista, o movimento de maior produção de etanol não é apenas conjuntural. “O Brasil está na vanguarda dos biocombustíveis. Sempre esteve, ao longo das últimas décadas”, disse. Ele avalia que a transição energética fortalece essa tendência e cria um ambiente mais favorável ao etanol no médio e longo prazo.

Muruci destacou ainda que o aumento da oferta de cana dá segurança ao setor. “Temos conforto na oferta, o que permite ampliar a produção de etanol sem risco de desabastecimento”, afirmou. Segundo a Safras, o aumento da mistura de E27 para E30 gera acréscimo de 1,65 bilhão de litros na demanda anual por etanol anidro.

Impacto para o consumidor só após o 1º trimestre

No curto prazo, o analista avalia que o consumidor ainda não deve perceber vantagem clara do etanol nas bombas. “No primeiro trimestre, estamos na entressafra, e as usinas precisam administrar os estoques”, explicou.

A expectativa é de mudança ao longo do ano. “Passado o primeiro trimestre e com o início da nova safra, a oferta aumenta, os preços caem e a vantagem do etanol hidratado frente à gasolina tende a voltar”, afirmou. Segundo ele, esse movimento deve ocorrer com mais clareza em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Canal Rural