Diz Abics: Tarifas e reforma tributária colocam liderança do Brasil no café solúvel em risco
O Brasil segue como uma das principais referências globais na produção e exportação de café solúvel, mas fechou 2025 sob forte pressão. Tarifas impostas pelos Estados Unidos, a ausência de novos acordos comerciais e mudanças na tributação reduziram a competitividade do produto brasileiro.
Para 2026, o setor cobra respostas mais rápidas do governo para evitar a perda de mercados estratégicos. A avaliação é de Aguinaldo José de Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).
Exportações recuam após tarifaço dos Estados Unidos
Segundo Lima, 2025 começou com expectativas positivas, mas o cenário mudou ao longo do ano. “Era um ano para ser muito bom, com vários objetivos alcançados, mas acabou se frustrando principalmente por conta do tarifaço aplicado pelos Estados Unidos”, afirmou.
Ele lembrou que 2024 foi um ano recorde para o setor. “Batemos recorde de volume e de faturamento, com mais de US$ 1 bilhão exportados para mais de 100 países”, disse.
Até junho de 2025, as exportações cresciam cerca de 5% em relação ao primeiro semestre do ano anterior. Com a entrada em vigor das tarifas, porém, as perdas se intensificaram no segundo semestre. “Novembro chegou a registrar uma queda de 72% nas exportações em relação ao mesmo mês de 2024”, destacou.
Com isso, a Abics estima que o setor deve encerrar 2025 com recuo próximo de 9% no volume exportado. “Vamos voltar ao nível de exportações de dois anos atrás, basicamente por causa da redução das vendas para os Estados Unidos”, explicou.
Faturamento se mantém, mas não compensa perda de mercado
Apesar da queda no volume, o faturamento do café solúvel brasileiro deve seguir acima de US$ 1 bilhão, sustentado pelos preços mais elevados do café. Ainda assim, Lima ressaltou que o resultado financeiro não elimina as preocupações do setor.
“Isso não compensa as perdas de volume. A grande preocupação é que esses espaços sejam ocupados por outros fornecedores”, alertou.
Segundo ele, países com capacidade produtiva ociosa já observam essa fatia do mercado. “Eles têm tarifas mais competitivas do que o Brasil e vão abocanhar parte desse mercado. Reverter isso no futuro será muito difícil”, afirmou.
Tarifa elevada ameaça relação histórica com os EUA
O diretor-executivo da Abics destacou que o café solúvel brasileiro segue com tarifa de 50% nos Estados Unidos, enquanto café em grão e torrado tiveram a alíquota zerada. “É uma preocupação muito grande para um país que sempre foi nosso cliente há mais de 60 anos, com uma relação de grande fidelidade”, disse.
Para Lima, a construção do mercado americano foi baseada justamente nessa parceria de longo prazo. “Foi com base nessa relação que conquistamos o mercado dos Estados Unidos”, afirmou.
Falta de acordo com a União Europeia limita alternativas
Outro ponto de frustração para o setor foi a não conclusão do acordo entre Mercosul e União Europeia. Lima explicou que havia expectativa de redução gradual da tarifa de 9% ao longo de quatro anos. “Isso nos permitiria encaixar parte dos volumes que não vão mais para os Estados Unidos”, afirmou.
Ele lembrou que, como bloco econômico, a União Europeia é o segundo maior destino do café solúvel brasileiro. “Esse quadro tira um pouco a esperança de termos mercados alternativos, porque o Brasil tem poucos acordos comerciais e acaba competindo de forma desigual”, avaliou.
Ásia cresce, mas Brasil perde espaço
Na Ásia, onde o consumo de café solúvel cresce cerca de 6% ao ano, o Brasil também enfrenta dificuldades. Segundo Lima, países como Vietnã e Indonésia se beneficiam de acordos regionais. “Eles têm tarifa zero entre si, enquanto o Brasil fica de fora”, explicou.
O diretor destacou ainda o avanço do Vietnã no mercado europeu. “O Vietnã já zerou tarifas com a União Europeia e está ganhando espaço. No ano que vem, deve ultrapassar o Brasil no fornecimento de café solúvel para o bloco”, afirmou.
Reforma tributária reduz rentabilidade do setor
No mercado interno, a reforma tributária também preocupa a indústria. Lima explicou que o café solúvel perde o crédito presumido de sete vírgula quatro por cento de PIS/Cofins. “Isso foi conquistado para recuperar impostos retidos na cadeia produtiva e agora está sendo retirado”, disse.
Segundo ele, a perda será gradual entre 2027 e 2032, mas o impacto é direto. “Na prática, é como retirar 7,4% da rentabilidade do produto”, afirmou.
Expectativa é por reação em 2026
Diante do cenário, a Abics defende uma postura mais ativa do Brasil nas negociações comerciais. “O governo precisa ser mais agressivo, inclusive em acordos bilaterais, com negociações mais rápidas, cotas ou reduções temporárias de tarifas”, avaliou Lima.
Para ele, 2025 deixa um alerta claro. “O Brasil construiu essa liderança ao longo de mais de 60 anos, mas já há indicações de que, a partir do ano que vem, o Vietnã pode nos ultrapassar em produção e exportação”, concluiu.
A expectativa do setor é que 2026 traga um ambiente diferente, com avanços em acordos comerciais e soluções tributárias que preservem a competitividade do café solúvel brasileiro no mercado internacional.
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