Analistas opinam: Qual será o preço da arroba do boi gordo em 2026?
A arroba do boi gordo atingiu R$ 300 pela primeira vez em 1º de fevereiro de 2021, em São Paulo, impulsionada pela escassez de oferta de animais prontos para abate. Depois disso, demorou mais de dois anos para voltar e, enfim, se estabilizar neste patamar.
Em 2025, a média do país girou entre R$ 300 e 310, 22% a mais em relação a 2024. Porém, o custo de produção também teve elevação significativa, de 30%, sendo que 62% desse valor foi direcionado à reposição, 13% à suplementação mineral e 25% a outros fatores, conforme balanço da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
De acordo com o diretor técnico da entidade, Bruno Lucchi, para 2026 visualiza-se grande demanda pela proteína bovina, mas uma queda de, aproximadamente, 3,5% na produção nos principais países produtores, incluindo o Brasil. “Muitos países abateram bastante [em 2025] e a ideia é que ano que vem haja uma retenção”, sintetiza.
Para o comentarista do Canal Rural Miguel Daoud, essa dinâmica entre alta procura e baixa oferta deve garantir um próximo ano altamente rentável ao pecuarista.
Segundo ele, se a demanda interna continuar forte e o Brasil ao menos repetir as mais de 3 milhões de toneladas exportadas de janeiro de 2025 até agora, ao passo que a produção for menor do que as 12 milhões de toneladas deste ano, o mercado físico deve trabalhar com preços entre R$ 360 e R$ 400.
“Estamos em uma virada de ciclo. [O custo de] reposição subiu mais de 60% porque se abateu quase duas milhões de vacas neste ano, o que representa uma diminuição muito grande na oferta de bezerros. Então a reposição acabou subindo muito e vai subir ainda mais. O bezerro pode chegar a R$ 4 mil no primeiro semestre [de 2026]”, projeta.
Como dica ao pecuarista, Daoud enfatiza a importância de segurar o gado e travar preços. “Tem planta oferecendo bônus sobre a referência para entrega entre fevereiro e março”, conta.
‘Arroba até a R$ 360’
O analista de Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias não acredita que os preços da arroba possam chegar a R$ 400 ao longo de 2026, como estima Daoud.
“Em 26 de janeiro, temos o resultado de uma investigação que a China está conduzindo e que determinará se teremos salvaguardas ou não para a nossa carne bovina no mercado que mais adquire a nossa proteína. Se a China impor medidas restritivas, dificilmente nós veremos uma arroba do boi gordo em franca evolução”, conta.
Segundo ele, a remuneração pela arroba apenas tem condições de chegar às quatro centenas de reais se o câmbio estiver muito desvalorizado e a demanda interna ainda mais aquecida do que esteve em 2025.
“Diria que a arroba, em condições normais de mercado, pode chegar a R$ 350, talvez R$ 360, mas acho que R$ 400 é um valor muito acima da realidade. Seria viável apenas com um ‘estouro’ de câmbio ou um problema mais grave em relação à oferta e uma exportação muito mais aquecida do que a prevista inicialmente, mas não parece ser este o caso. Temos de lembrar que a exportação já está muito agressiva neste momento, sendo difícil imaginar um salto ainda maior de embarques do que já temos hoje”, pondera Iglesias.
Pode chegar a R$ 400
O coordenador da equipe de inteligência de mercado da Scot Consultoria, Felipe Fabbri, considera que a arroba do boi gordo entre R$ 370 e R$ 400 no primeiro semestre de 2026 é uma possibilidade, porém, dependerá, diretamente, do tamanho da redução da oferta e da demanda.
“Se a demanda vier a um ponto em que ainda haja margem para a indústria no final das contas e ela conseguir pagar o pecuarista e ver o preço da carne ser repassado ao consumidor, vendo, ao mesmo tempo, a exportação bastante aquecida, é possível chegar [entre R$ 370 e R$ 400]”, contextualiza.
Contudo, Fabbri ressalta que o primeiro trimestre de cada ano costuma ser marcado por demanda interna mais fragilizada, o que deve se repetir em 2026 por mera sazonalidade. “Perde-se aquele ímpeto do 13º salário, das bonificações e dos empregos temporários e abre-se espaço para o calendário de pagamento de impostos maiores, como IPVA e IPTU, além de rematrícula e material escolares, fatores que pesam no mercado doméstico. Acreditamos em uma oferta menor no primeiro trimestre de 2026, mais cadenciada, mas com uma demanda interna também menor”, diz.
Entretanto, passado este período, o especialista da Scot chama atenção para o fato de entrar em vigor, já em janeiro, a isenção de imposto de renda em folha para quem ganha até R$ 5 mil mensais.
“Essa renda adicional vai circular na sociedade, no mercado interno, o que é um fator que pode colaborar para que a arroba possa girar em torno de R$ 370 a R$ 400. Fato é que no ano que vem a tendência é de preços maiores se considerarmos apenas a oferta de boiadas.”
Exportações devem dar sustentação
Ainda que haja um provável arrefecimento no consumo interno no primeiro trimestre, o especialista da Scot pondera que há estímulo para crescimento ainda maior nas exportações nos próximos meses, com a indústria possivelmente aceitando achatar a sua margem no mercado doméstico para ganhar mais nos embarques.
“Nessa dinâmica, Estados Unidos tem um peso crucial porque é um país que paga mais pela carne bovina e que tem uma tarifa bem menor para as indústrias frigoríficas em termos de exportação. Janeiro e fevereiro possuem uma alíquota sazonalmente menor, o que pode trazer uma margem para exportação maior. Além disso, se o dólar for a R$ 6, o que pode acontecer, colocando na conta que se trata de um ano eleitoral, pode ser um fator que dê sustentação aos preços da arroba”, detalha Fabbri.
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