Do Brasil: O renascimento do feijão: por que o mundo redescobriu a nossa proteína com alma?

Janeiro 12, 2026 - 06:24
Do Brasil: O renascimento do feijão: por que o mundo redescobriu a nossa proteína com alma?
Foto: Pixabay

No prato do brasileiro, o feijão nunca foi apenas comida. Ele sempre foi o abraço de casa, o cheiro da cozinha da infância e o alicerce da nossa identidade. No entanto, ao abrirmos as cortinas de 2026, vemos uma transformação sem precedentes.

Além das nossas fronteiras, o feijão deixou de ser um simples acompanhamento para se tornar a estrela de uma revolução alimentar global. Existe uma busca voraz por proteínas saudáveis e sustentáveis, e o Brasil está sentado sobre uma mina de ouro. Não falamos apenas de grãos, mas de histórias que o mundo está ávido para consumir.

A cafeinização do feijão

Para entender o potencial do que temos nas mãos, precisamos olhar para o que aconteceu com o mercado de café. Há algumas décadas, o café era tratado como uma commodity genérica, vendido apenas pelo volume e preço. Hoje, o cenário é outro. O consumidor paga prêmios por nuances de sabor, notas sensoriais, altitude e, principalmente, pela história do produtor.

O feijão está trilhando exatamente esse caminho de valorização. Podemos e devemos explorar essa similaridade com o café para elevar a margem de lucro de quem produz e o prazer de quem consome. Onde antes se via apenas um grão básico, hoje se enxerga uma superfood versátil.

Variedades como o feijão-vermelho, o feijão-fradinho, o feijão-rajado e o nosso tradicional feijão-preto agora ganham as prateleiras internacionais com um novo status. O consumidor moderno não quer apenas saciar a fome. Ele busca a experiência de consumir um alimento com propósito, rastreabilidade e alma.

Embora o feijão seja nativo das Américas, a Europa foi o primeiro palco a elevar o grão ao status de alta culinária. Não existe um único inventor da gourmetização, mas a França desempenhou um papel crucial através do cassoulet. O que era um cozido camponês de feijão branco foi refinado com confit de pato e cordeiro, tornando-se um ícone mundial.

Diz a lenda que Catarina de Médici, no século 16, foi quem levou as sementes para a nobreza francesa, iniciando a aceitação do grão nas mesas reais.

No Brasil, esse fenômeno ganhou força recentemente. Saímos do trivial para as cartas de vinhos e menus degustação. A gourmetização brasileira está seguindo caminhos fascinantes, como a releitura da feijoada, transformada em evento de slow food (o prazer de comer, valorizando a cultura local) e o resgate de variedades nobres.

Feijões como o manteiguinha de Santarém, o roxinho e o andu saíram das roças regionais para os menus de chefs premiados, servidos como acompanhamentos delicados para frutos do mar e carnes nobres.

Uma herança milenar

A narrativa que encanta o mercado internacional está enraizada no solo da América do Sul há milênios. Os Caminhos do Peabiru, que em tupi significa caminho de grama amassada, formavam uma rede de trilhas transcontinentais que conectavam o Atlântico aos Andes. Construído pelos incas e consolidado pelos índios há mais de 1.500 anos, esse sistema era a artéria por onde circulavam culturas e alimentos.

O feijão era o combustível dessas rotas místicas. Séculos depois, foi esse mesmo grão que garantiu a expansão do território brasileiro no lombo dos tropeiros. Por ser um alimento que não perecia e oferecia a energia necessária, o feijão acompanhou o desbravador onde nada mais chegava. Ao exportarmos nosso feijão, estamos entregando milênios de resiliência. É essa história que agrega valor e diferencia o grão brasileiro da concorrência global.

Feijão pronto para consumo

A vida em 2026 exige praticidade. Uma das maiores tendências é o crescimento do feijão pronto para o consumo. A rotina moderna silenciou a panela de pressão em muitos lares, mas o desejo pela nutrição de verdade permanece vivo.

Seja cozido no vapor, embalado a vácuo ou transformado em snacks funcionais, o feijão pronto para comer é a ponte entre a tradição e a modernidade. O Brasil já exporta o grão em grandes volumes, mas o próximo passo estratégico é levar essa tecnologia de processamento e a nossa história aos consumidores de todo o mundo.

O feijão não é apenas uma commodity. Ele é a nossa história contada em grãos. É a proteína que o planeta precisa com o sabor que só a nossa terra e o nosso passado podem oferecer. Temos a narrativa, temos a qualidade e temos a escala. O que precisamos agora é de ousadia para levar essa história ao mundo, tratando o feijão-carioca e suas variedades com o orgulho e a sofisticação que elas merecem. O mundo está com fome de feijão, mas, acima de tudo, está com fome da nossa história. Vamos entregá-la.

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