Reduzem metano: Gramíneas consorciadas com leguminosas em ILP elevam ganho de peso dos bois
Sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) que combinam gramíneas forrageiras de alto potencial produtivo com leguminosas promovem ganhos expressivos de produtividade e reduzem a intensidade das emissões de metano entérico na pecuária. Além disso, essas estratégias aumentam o acúmulo de carbono no solo, reforçando o papel da atividade pecuária na mitigação das mudanças climáticas.
Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Embrapa Cerrados, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). O trabalho científico ganhou destaque em um simpósio internacional coordenado pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), da Universidade de São Paulo.
Avaliação de diferentes sistemas produtivos
A pesquisa integra a tese de doutorado da bolsista Thais de Sousa, desenvolvida com apoio de pesquisadores da Embrapa Cerrados e orientação acadêmica da UnB. O estudo avaliou como distintas estratégias de intensificação da pecuária, com bovinos da nelore BRGN, influenciam o desempenho animal, as emissões de metano entérico e o estoque de carbono no solo.
Foram analisados três sistemas de produção. O primeiro consistiu em pastagem contínua solteira de capim BRS Piatã. O segundo avaliou o consórcio do mesmo capim com a leguminosa feijão-guandu Iapar 43. Já o terceiro sistema envolveu a integração lavoura-pecuária, com rotação entre lavoura e pastagem de capim BRS Zuri.
Ganho de peso cresce com intensificação
Os resultados mostram uma relação direta entre intensificação produtiva e desempenho animal. No sistema de pastagem solteira, o ganho médio diário foi de 0,44 kg por animal. No consórcio com leguminosa, esse valor subiu para 0,69 kg. Já no sistema ILP em rotação com lavoura, o ganho médio diário alcançou 0,76 kg.
Segundo os pesquisadores, a melhoria da qualidade e da disponibilidade da forragem explica parte desse desempenho. Pastagens mais equilibradas nutricionalmente favorecem o consumo e a eficiência alimentar dos bovinos, refletindo em maior produção de carne por área.
Menor intensidade de emissão de metano
Além do ganho de peso, o estudo revelou redução significativa na intensidade de emissão de metano, indicador que relaciona a quantidade de gás emitida com o ganho de peso vivo por hectare. A pastagem solteira apresentou intensidade de 450 g de CH₄ por quilo de ganho de peso vivo por hectare.
No consórcio com leguminosa, esse índice caiu para 269 g de CH₄ por quilo. No sistema ILP com capim Zuri em rotação, a intensidade foi ainda menor, de 224 g de CH₄ por quilo de ganho de peso vivo por hectare. Os dados indicam que sistemas mais produtivos diluem as emissões, tornando a atividade mais eficiente do ponto de vista climático.
Solo mais rico em carbono
O acúmulo de carbono no solo acompanhou a mesma tendência observada para produtividade e emissões. Na camada de 0 a 30 centímetros, o estoque de carbono foi significativamente maior nos sistemas integrados.
O destaque ficou para o consórcio do capim Piatã com o feijão-guandu, que alcançou 83,17 toneladas de carbono por hectare. Na pastagem solteira, o estoque foi de 62,20 toneladas por hectare, o que representa um incremento superior a 20 toneladas de carbono no sistema consorciado.
Esse resultado reforça o papel das leguminosas na melhoria da fertilidade do solo e na ciclagem de nutrientes, além do efeito positivo sobre a captura de carbono atmosférico.
Intensificação com menor emissão de GEE
O estudo também demonstrou que intensificar a produção pecuária não significa, necessariamente, aumentar as emissões de gases de efeito estufa. Sistemas bem manejados, seja com a inclusão de leguminosas ou com a rotação lavoura-pecuária, possibilitam maior produção de carne com menor impacto ambiental.
Pesquisas anteriores realizadas na mesma área experimental já indicavam que os sistemas integrados reduzem as emissões de óxido nitroso em até 59%, outro gás de efeito estufa relevante no setor agropecuário.
Metano no centro do debate climático
O Brasil figura entre os maiores produtores de carne bovina do mundo, com mais de 90% da produção realizada em sistemas a pasto. Esse cenário oferece grande potencial de intensificação sustentável. A emissão de metano entérico, gerada no processo digestivo dos ruminantes, possui potencial de aquecimento global cerca de 27 vezes superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de 100 anos.
O tema ganhou destaque nos debates sobre o papel da agropecuária brasileira na mitigação das mudanças climáticas durante a COP30, realizada em Belém (PA). Para a pesquisadora Arminda de Carvalho, da Embrapa Cerrados, reduzir emissões sem comprometer o desempenho animal é um dos principais desafios do setor.
“A integração lavoura-pecuária, o consórcio de pastagens e os sistemas intensivos bem manejados têm se mostrado alternativas viáveis para a descarbonização da pecuária”, afirma.
Os dados analisados foram coletados no experimento com sistemas ILP mais antigo do Brasil, implantado em 1991 na área experimental da Embrapa Cerrados. As avaliações ocorreram em maio, agosto e dezembro de 2024.
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