Roacutan no SUS: saiba quando e como conseguir acesso ao medicamento de forma gratuita

Março 2, 2026 - 05:32
Roacutan no SUS: saiba quando e como conseguir acesso ao medicamento de forma gratuita
Para quem sofre com acnes, SUS oferece tratamento completo e gratuito no Estado - Foto: reprodução/internet

Uma conversa entre duas participantes do reality show BBB 26 (Big Brother Brasil 2026) surpreendeu os internautas na última semana ao revelar que o medicamento Roacutan, utilizado no tratamento da acne, pode ser obtido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em Mato Grosso do Sul, 179 pessoas já estão cadastradas para receber o medicamento pelo SUS. Desse total, 56% são do sexo feminino e 48% têm entre 15 e 25 anos. Em 2024, foram registradas 23 novas solicitações. Já em 2025, o número subiu para 67.

De acordo com o Ministério da Saúde, a acne, conhecida popularmente como espinhas, são extremamente comuns na população e representam o principal motivo das consultas ao dermatologista no país, correspondendo a 14% de todos os atendimentos.

O Roacutan é um medicamento indicado para o tratamento de acne grave. Seu princípio ativo, a isotretinoína, derivado da vitamina A, está disponível pelo SUS para pacientes com indicação de início do tratamento. Para ter acesso ao medicamento, é importante compreender em quais casos ele é prescrito, seus possíveis efeitos colaterais e os procedimentos necessários para a obtenção gratuita.

Para esclarecer essas questões, o jornal O Estado conversou com a SESAU (Secretaria Municipal de Saúde) de Campo Grande. O órgão informou que o tratamento da acne pelo SUS inclui medicamentos tópicos, aplicados diretamente na pele, antibióticos e, nos casos mais graves, com risco de cicatrizes ou sem resposta a tratamentos anteriores, pode ser recomendado o Roacutan, conforme o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde.

A pasta explica ainda que quadros graves de acne podem causar dor e deixar cicatrizes. A liberação do tratamento depende de avaliação médica, realização de exames e apresentação de documentação específica para autorização pela Casa da Saúde. O medicamento pode ser concedido em casos classificados nos CIDs (Classificação Internacional de Doenças) L70.0, L70.1 e L70.8.

“Casos moderados podem ser analisados individualmente. O processo começa na Unidade de Saúde da Família, com possível encaminhamento ao dermatologista. Após aprovação, o medicamento é fornecido gratuitamente, e o tratamento pode durar vários meses”, informou a SESAU em resposta à reportagem.

CID L70.0 – Acne vulgar

É a forma mais comum da doença, caracterizada pela inflamação dos folículos pilossebáceos. Manifesta-se por cravos, espinhas, pápulas e pústulas, principalmente no rosto, peito e costas. Está incluída no grupo de doenças da pele (L60-L75) e é uma condição inflamatória frequente, com influência de fatores hormonais.

CID L70.1 – Acne conglobata

Trata-se de uma forma grave e crônica da acne, marcada pela presença de abscessos profundos, nódulos e cistos inflamatórios que podem causar desfiguração. Costuma deixar cicatrizes profundas e exige tratamento médico especializado, como o uso de isotretinoína.

CID L70.8 – Outras formas de acne

Inclui variantes que não se enquadram nas classificações específicas anteriores. É utilizado para casos de acne atípica, ocupacional ou reativa.

Impactos emocionais

Além dos impactos físicos, a acne pode provocar abalos emocionais. Por isso, a SESAU destaca que o SUS também oferece acompanhamento psicológico por meio da Atenção Primária, dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e do Ambulatório de Saúde Mental, quando há sofrimento psíquico associado. O público mais afetado é composto por adolescentes e adultos jovens, e a orientação é buscar avaliação precoce para evitar complicações.

A SES (Secretaria de Estado de Saúde) também respondeu ao O Estado e reafirmou os pontos apresentados pela Prefeitura. A pasta estadual acrescentou que, para mulheres em idade fértil, é obrigatória a apresentação de teste de gravidez negativo e a comprovação do uso de método contraceptivo eficaz, já que a isotretinoína apresenta risco de malformações fetais.

Sobre o acesso ao medicamento, o órgão explicou que “ocorre mediante abertura de processo administrativo com apresentação de laudo médico e documentação exigida, sendo a dispensação realizada de forma mensal, conforme manutenção dos critérios clínicos e exames de monitoramento”.

O que diz a dermatologista?

A médica dermatologista Camila Tormena afirma que o acesso ao medicamento pelo SUS pode prevenir cicatrizes permanentes. “Em muitas situações, o custo da medicação na rede privada é elevado e inviável para grande parte das famílias, o que pode atrasar o início do tratamento adequado, ao garantir esse acesso, o SUS possibilita intervenção precoce, controle mais rápido da inflamação e, consequentemente, reduz o risco de sequelas físicas, como cicatrizes atróficas, manchas residuais e deformidades”, explica. A dermatologista ressalta que democratizar o tratamento também significa promover qualidade de vida e saúde mental a longo prazo.

Sobre a duração, a médica afirma que o tratamento é variável, mas geralmente dura de seis a dez meses, tempo necessário para que a glândula sebácea sofra a atrofia adequada e se reduzam as chances de recidiva. Embora exista possibilidade de reincidência, Camila destaca que, em cerca de 80% dos casos, a cura é definitiva. O acompanhamento deve ser mensal durante todo o período de uso da medicação, com realização de exames regulares, incluindo hemograma completo, já que o monitoramento precisa ser rigoroso.

O tratamento também pode causar efeitos colaterais. O mais comum é o ressecamento, que se manifesta por lábios rachados, pele seca, olhos secos e, em alguns casos, sangramento nasal devido ao ressecamento da mucosa. Também podem ocorrer dores musculares leves e fotossensibilidade.

Além disso, o medicamento pode impactar o fígado e alterar os níveis de colesterol. “A medicação é metabolizada pelo fígado e pode alterar as enzimas hepáticas e o perfil lipídico (aumentando o colesterol e triglicerídeos). Por isso, o controle dietético e os exames laboratoriais são indispensáveis”, explica a profissional.

Camila faz um alerta importante: acne não é frescura. “Ela está associada a taxas elevadas de ansiedade, depressão e fobia social. O rosto é nosso cartão de visitas, e as lesões inflamadas podem gerar muita dor e vergonha. O tratamento é transformador. À medida que a pele limpa, percebemos o paciente “florescer”: eles passam a olhar nos olhos, as mulheres voltam a usar menos maquiagem de cobertura e o isolamento social diminui drasticamente”.

Quem utiliza o medicamento deve adotar alguns cuidados, como hidratação intensa, com uso de protetor labial, colírios e hidratantes corporais, proteção solar mesmo em dias nublados e evitar o consumo de álcool, já que ele sobrecarrega o fígado, que já está trabalhando intensamente durante o tratamento.

O Estado Online