Plantação: Doença provocada pela cigarrinha desafia produtores de milho em Mato Grosso do Sul
O maior pesadelo sanitário dos produtores de milho do país, a cigarrinha-do-milho, causa prejuízo anual estimado em US$ 6,5 bilhões, o equivalente a R$ 33,6 bilhões, com base no câmbio atual.
Nas quatro safras de 2020 a 2024, as perdas causadas pelo inseto nas lavouras alcançaram US$ 25,8 bilhões, mais de R$ 134,16 bilhões. O impacto reflete perda média de produção de 22,7% no período, equivalente a cerca de 31,8 milhões de toneladas de milho por ano — aproximadamente 2 bilhões de sacas de 60 quilos que deixaram de ser produzidas.
Além disso, os custos de aplicação de inseticidas para o controle do Dalbulus maidis, nome científico da praga, aumentaram 19%, superando US$ 9 (R$ 46) por hectare. As estimativas fazem parte de um estudo divulgado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
Segundo a Embrapa, a praga é “o maior desafio sanitário do sistema produtivo de milho no Brasil das últimas décadas”. O levantamento foi conduzido em 34 municípios representativos das principais regiões produtoras do país. De acordo com o pesquisador da divisão Cerrados da Embrapa, Charles Oliveira, “em cerca de 80% das localidades avaliadas, a cigarrinha ou os enfezamentos foram apontados como fator central para a queda de produtividade”.
A cigarrinha-do-milho adquire os patógenos ao se alimentar de plantas infectadas e passa a transmiti-los para plantas sadias. A doença se manifesta de duas formas, pálida e vermelha, altera a coloração da planta, provoca estrias e compromete a produção de grãos.
Redução de 70% da produção
De acordo com a Aprosoja-MS, a cigarrinha (Dalbulus maidis) se tornou a principal praga no cultivo de milho em Mato Grosso do Sul. O inseto transmite molicutes (espiroplasmas e fitoplasmas), responsáveis pelos enfezamentos, que podem reduzir a produção em até 70%.
Nesta safra, houve aumento de 13% na incidência considerada baixa da praga. Por outro lado, foi registrada redução de 6% na incidência média e de 5% na alta, embora praticamente todas as propriedades apresentem algum nível de infestação.
A infestação é considerada sob controle, mas ainda exige atenção e monitoramento constantes por parte dos produtores.
O boletim também mostra que o uso de agentes biológicos no controle de pragas ainda não é predominante no estado. Atualmente, 43% das propriedades adotam essa prática (220 unidades produtivas), enquanto 57% (373 propriedades) ainda não utilizam métodos biológicos.
Entre os produtores que adotam a tecnologia, a utilização é ampla: 98% aplicam os agentes biológicos em toda a área cultivada, e apenas 2% fazem uso parcial.
Os dados foram coletados em 702 propriedades, pertencentes a 471 produtores, abrangendo uma área total de 610 mil hectares.
De acordo com a engenheira agrônoma e conselheira do CREA-MS, Eliane de Oliveira, a cigarrinha segue sendo motivo de preocupação constante no campo.
Segundo ela, a ação do inseto compromete diretamente o desenvolvimento da planta. “Esses patógenos fazem com que a planta fique doente, absorva menos nutrientes e tenha a fotossíntese prejudicada, acarretando uma série de problemas fisiológicos”, destaca.
Eliane também alerta para efeitos indiretos. “Com a planta debilitada, ela fica mais suscetível a fungos oportunistas, que atacam raízes e colmos. Isso enfraquece a estrutura e, com ventos fortes, como ocorre em regiões como Rio Brilhante, o milho acaba tombando, ampliando os prejuízos.”
De acordo com a agrônoma, os danos mais severos aparecem em fases mais avançadas. “Os danos aparecem no espigamento, com multiespigamento, grãos chochos e plantas com porte reduzido e amareladas ou avermelhadas.”
Ela ressalta que o controle exige ação precoce. “Se tiver presença da cigarrinha, já está em nível de dano. É presença ou ausência: apareceu, tem que controlar”, afirma.
O manejo, segundo a especialista, elevou os custos de produção. “Com certeza aumenta o custo, porque são aplicações que antes não eram necessárias. O controle precisa começar cedo, ainda nas primeiras folhas da planta, e seguir até o pré-pendão.”
Ameaça ao campeão de produção
O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de milho e um dos principais exportadores do grão. A estimativa para a safra 2025/2026 é de 138,4 milhões de toneladas, com valor de produção próximo de US$ 30 bilhões (cerca de R$ 155 bilhões), segundo a Conab.
Para o assessor técnico da CNA, Tiago Pereira, a praga representa perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país. Já a pesquisadora da Epagri, Maria Cristina Canale, destaca que os efeitos vão além das lavouras.
“Como o milho é base para a produção de proteína animal e biocombustíveis, as quebras de safra elevam os preços para o consumidor e afetam a balança comercial brasileira”, afirma.
Soluções
Diante do cenário, a Embrapa recomenda medidas para reduzir os danos, como a eliminação do milho tiguera, a sincronização do plantio, o uso de cultivares resistentes, o manejo inicial com controle químico e biológico e o monitoramento constante das lavouras. Também há esforços no uso de controle biológico, com fungos entomopatogênicos, diante da resistência da praga a alguns inseticidas.
O Estado Online













