Brasil registra 6,9 mil vítimas de feminicídio consumado e tentado em 2025, alta de 34%

Março 3, 2026 - 09:05
Março 3, 2026 - 09:05
Brasil registra 6,9 mil vítimas de feminicídio consumado e tentado em 2025, alta de 34%
Foto: Nilson Figueiredo

O Brasil contabilizou 6.904 vítimas de feminicídio consumado e tentado em 2025, número 34% superior ao registrado em 2024, quando houve 5.150 casos. Do total deste ano, 2.149 mulheres foram assassinadas e 4.755 sofreram tentativas de feminicídio, o que representa média de 5,89 mortes por dia.

Os dados constam no Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL). O levantamento também traça o perfil das vítimas e dos agressores.

O número apresentado pelo relatório é 38,8% superior ao divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Segundo a última atualização do sistema, foram registradas 1.548 mulheres mortas por feminicídio em 2025. As informações oficiais são enviadas pelos estados.

De acordo com a pesquisadora Daiane Bertasso, integrante da equipe responsável pelo estudo, a diferença está relacionada à subnotificação. “Mesmo os nossos dados sendo acima dos dados da segurança pública [Sinesp], a gente acredita que há ainda subnotificação. Porque nem todo o crime de feminicídio é noticiado, divulgado nas mídias. Pelas nossas experiências e pesquisas, a gente acredita que esse registro ainda é inferior à realidade, infelizmente”, afirmou.

O relatório utiliza metodologia própria, baseada na produção de contradados a partir do Monitor de Feminicídios no Brasil, que acompanha diariamente fontes não estatais, como sites de notícias, além de realizar análise quantitativa e qualitativa e cruzamento com registros oficiais. Segundo a pesquisadora, o olhar especializado das equipes permite identificar tentativas de feminicídio que nem sempre são corretamente classificadas nos sistemas de segurança pública.

Entre os quase 7 mil casos analisados, 75% ocorreram no âmbito íntimo, quando o agressor é ou foi companheiro, ex-companheiro ou mantém vínculo familiar com a vítima. A maioria dos crimes aconteceu na residência da própria mulher (38%) ou na casa do casal (21%).

A faixa etária mais atingida foi a de 25 a 34 anos, que representa 30% das vítimas, com mediana de idade de 33 anos. Pelo menos 22% das mulheres haviam registrado denúncias anteriores contra os agressores.

O levantamento indica ainda que 69% das vítimas, nos casos com dados disponíveis, tinham filhos ou dependentes. Ao todo, 101 mulheres estavam grávidas no momento da violência, e 1.653 crianças ficaram órfãs em decorrência dos crimes.

Em relação aos autores, a idade média é de 36 anos. A maior parte dos feminicídios foi cometida por um único agressor (94%). Armas brancas, como facas e canivetes, foram utilizadas em 48% dos casos. Em 7,91% das ocorrências com informações conhecidas, houve morte do suspeito após o crime, na maioria das vezes por suicídio. A prisão foi confirmada em ao menos 67% dos casos com dados disponíveis.

Segundo a pesquisadora, o feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo prolongado de violência. “O feminicídio não é um crime inesperado. É um crime que resulta de relações familiares e íntimas. E ele se dá depois de um ciclo de violências de vários tipos”, afirmou.

Ela aponta que fatores como machismo e misoginia contribuem para a negligência dos sinais prévios de violência. Casos recentes mostram que, mesmo com medidas protetivas, algumas mulheres não receberam proteção efetiva e acabaram mortas. O estudo também chama atenção para a influência de redes que reforçam discursos misóginos, inclusive entre jovens, como elemento que pode estimular comportamentos violentos.

O Estado Online