Importante: Quando pedir ajuda deixa de ser sinal de fraqueza e se torna o primeiro passo para continuar
Há dores que não aparecem em exames de sangue, não deixam marcas visíveis e, muitas vezes, passam despercebidas até por quem está ao lado. A pessoa trabalha, estuda, conversa, sorri para uma fotografia e segue a rotina, enquanto, por dentro, enfrenta uma batalha que ninguém conhece.
Durante muito tempo, falar em saúde mental significava, para muita gente, falar baixo, esconder sintomas e evitar até mesmo pronunciar a palavra “psiquiatra”. O medo de ser chamado de “louco”, de receber um rótulo ou de ser visto como alguém sem força de vontade fez com que milhares de pessoas adiassem um cuidado que poderia ter começado muito antes.
Foi assim durante anos com a bióloga marinha Sabrina Diniz, nome fictício adotado a pedido da entrevistada. Também foi assim com a publicitária Alana Dutra, outro nome fictício usado para preservar sua identidade. As duas têm histórias, diagnósticos e trajetórias diferentes. Mas existe algo que as aproxima: por muito tempo, ambas precisaram lidar não apenas com os sintomas, mas também com os preconceitos que cercam a doença mental.
A diferença é que, em algum momento, elas encontraram tratamento. E foi justamente aí que começaram a descobrir que aquilo que durante anos parecia fraqueza tinha nome, diagnóstico e, principalmente, possibilidade de cuidado.
A discussão deixou de ser periférica. Segundo o Ipsos Health Service Report 2025, 52% dos brasileiros apontam a saúde mental como sua principal preocupação na área da saúde. O percentual era de 18% em 2018. A preocupação já supera o câncer, citado por 37% dos entrevistados, e o estresse, com 33%.
O país também aparece entre aqueles em que a população mais pensa sobre o próprio bem-estar emocional: 74% dos brasileiros dizem refletir “com muita frequência” sobre o tema. Os números mostram que o assunto chegou ao centro do debate. As histórias, porém, mostram que ainda existe um longo caminho entre falar sobre saúde mental e realmente compreender quem adoece.
O “louco” que mora no imaginário
Por décadas, a psiquiatria foi empurrada para um lugar cercado por medo. No imaginário popular, o consultório psiquiátrico ainda pode ser associado ao hospício, à perda da autonomia e a medicamentos que supostamente transformariam a personalidade. O médico Carlos Renato Periotto, docente do curso de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Campo Grande, percebe uma mudança nesse cenário, mas afirma que o preconceito não desapareceu.
“A saúde mental ganhou muito espaço nos últimos anos. Novelas, redes sociais e a internet trouxeram temas como TDAH, autismo, ansiedade e depressão para o debate público. Isso ajudou a reduzir parte do preconceito e fez muitas pessoas procurarem tratamento.
Para ele, a maior exposição dos transtornos mentais ajudou a aproximar a psiquiatria da vida cotidiana. Mas ainda há uma imagem difícil de desconstruir: a de que psiquiatra seria apenas o “médico de louco”. A comparação ajuda a colocar a discussão em outro lugar.
“Na prática, pacientes psicóticos representam uma minoria dos atendimentos. A maior parte das consultas envolve ansiedade, depressão, insônia, estresse, transtornos relacionados ao trabalho, TDAH e outros problemas muito frequentes. Esses transtornos fazem parte da vida moderna da mesma forma que hipertensão ou diabetes fazem parte da medicina clínica. Precisamos cuidar da saúde mental com a mesma naturalidade com que cuidamos da saúde física”, explica.
Quando a ansiedade parecia apenas parte da personalidade
Sabrina tinha 15 anos quando procurou uma psicóloga pela primeira vez. Havia acabado de se mudar da Bahia para São Paulo e enfrentava as dificuldades de adaptação e episódios de xenofobia. Se sentia sozinha e triste. A terapia, que começou naquele momento, nunca mais saiu de sua vida.
“Me mudei da Bahia para São Paulo e sofri com diversos preconceitos, inclusive xenofobia (aversão, medo ou ódio manifestados contra pessoas estrangeiras ou vistas como “de fora”). Me sentia sozinha e triste; precisei de ajuda para processar a mudança.”
Mais tarde, Sabrina recebeu diagnóstico de transtorno de personalidade borderline (condição de saúde mental caracterizada por instabilidade crônica nas emoções, na autoimagem e nos relacionamentos). Antes disso, a ansiedade já ocupava espaço demais. O diagnóstico também mudou a maneira como ela enxergava o próprio comportamento.
“Costumo dizer que às vezes entro em um espiral de pensamento do qual só consigo sair com ajuda. Foi quando descobri que aquilo não era normal. Mas o reconhecimento do problema, não significou aceitação imediata. Durante muito tempo tive preconceito contra os próprios medicamentos.Tinha preconceito com remédios, me sentia maluca por precisar deles, achava que eu era caso de hospício mesmo”, relembra.
Em 2020, segundo Sabrina, o debate sobre saúde mental ainda não tinha a mesma dimensão que ganhou posteriormente. “Comecei a tomar remédio com 19 anos, era 2020 e saúde mental não era um tópico como agora é. Ninguém falava sobre normalizar esse assunto.”
Nesse cenário, a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) também tem papel importante na construção de uma compreensão mais ampla e menos preconceituosa sobre os transtornos mentais. A entidade atua na valorização e no desenvolvimento da psiquiatria no país, promovendo atualização científica dos profissionais, disseminando informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento e participando do debate sobre políticas públicas de saúde mental. Ao levar conhecimento para além dos consultórios e combater a desinformação, a ABP contribui para aproximar a população dos cuidados em saúde mental e reforçar que transtornos psiquiátricos são condições de saúde que podem e devem ser tratadas.
Quando pedir ajuda parece admitir fraqueza
Para Periotto, a resistência em procurar um profissional está relacionada à dificuldade de admitir que algo não vai bem. O problema é que essa vulnerabilidade ainda costuma ser interpretada como fraqueza.
“Falar da própria intimidade, reconhecer dificuldades emocionais e pedir ajuda exige vulnerabilidade. Algumas pessoas ainda interpretam isso como sinal de fraqueza, quando, na verdade, é um ato de cuidado.”
Sabrina experimentou essa contradição. Procurou ajuda psicológica cedo, mas levou mais tempo para compreender a necessidade de acompanhamento psiquiátrico. A primeira experiência com um psiquiatra, segundo ela, foi ruim. Sabrina sentiu que não foi ouvida e que o atendimento se concentrou na prescrição de medicamentos.
“É difícil achar um médico que te ouça e te veja como um ser humano, não só um caso que precisa ser consertado. Essa experiência também mostrou outro ponto importante do tratamento, que é encontrar um profissional com quem a gente consiga estabelecer vínculo. Hoje entendo que na saúde mental, ser ouvido não é um detalhe. Faz parte do cuidado.”
O corpo também pede socorro
A história de Alana começou de outra maneira. Aos 22 anos, depois de problemas físicos relacionados a uma gastrite, ela foi encaminhada para um psiquiatra. O atendimento revelou um quadro muito maior do que aquele que inicialmente a levou ao médico. Alala convive com transtornos alimentares, depressão e transtorno bipolar.
Os transtornos alimentares começaram ainda na adolescência, quando comentários sobre seu corpo passaram a fazer parte da rotina. Os apelidos e comparações se transformaram em um ciclo de sofrimento. Durante anos, Alana escondeu o problema. Não porque desconhecesse a importância da saúde mental — pelo contrário. Ela aconselhava amigos a procurar ajuda, mas não conseguia fazer o mesmo por si.
“Eu sempre fui muito comparada com a minha prima, que é um mês mais nova que eu e sempre foi mais magra que eu. Eu chegava em casa e atacava tudo e depois vomitava, e isso virou rotina. Eu não tinha preconceitos. Sempre fui a favor da saúde mental e apoiava meus amigos e os incentivava a procurarem ajuda quando os via em uma situação parecida. Acontece que eu não buscava ajuda e mascarava tudo, guardava muito para mim”, afirma.
É uma contradição comum: saber que o outro precisa de ajuda e, ainda assim, acreditar que consigo suportar sozinho.
“Hoje está muito mais fácil ter acesso à psiquiatria. Existem consultas presenciais e online, o que aumenta a privacidade e o acesso ao tratamento. A formação de novos especialistas cresce a cada ano, e os tratamentos estão cada vez mais precisos e personalizados. Minha mensagem é simples: não espere o sofrimento aumentar para procurar ajuda. Quanto mais cedo iniciarmos o tratamento, maiores são as chances de aliviar os sintomas, recuperar a qualidade de vida e prevenir que o problema se torne crônico”, finaliza.
Talvez seja essa a mudança mais importante: entender que ninguém precisa provar força permanecendo em silêncio. Uma doença mental não apaga a pessoa que existe por trás do diagnóstico. Não tira seus sonhos, seus afetos, seu trabalho ou sua capacidade de amar e ser amado.
E procurar ajuda não é admitir derrota. É reconhecer que, assim como qualquer outra parte do corpo, a mente também pode adoecer. E merece cuidado.
O Estado Online









